Alice Prosa e Poesia

Um pouco de mim...

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O silêncio que ouço
Hoje só ouvi um rojão comemorando a cassação da presidente da república. Veio de um vizinho, candidato a vereador. Também não ouvi muitos fogos no dia da votação da Câmara. Também vi poucas manifestações de júbilo nas minhas redes sociais. O que isto significa? Pode até ser sinal de uma gigantesca indiferença. Mas, a impressão que me dá é que todos os brasileiros estão um pouco mais tristes. No último ano tenho visto tantos estranhamentos, rachaduras, desilusão, rebeldias, em pessoas que eu não julgava ver. E há nisso tudo um sentimento paradoxalmente satisfatório para mim. Parece loucura o que vou dizer, mas acho positiva esta dor coletiva. Eu pensava que morreria sozinha, fora do sistema, como sempre fui, e hoje percebo que não. Ao ver a satisfação explícita reduzida a meia dúzia de babacas, me sinto esperançosa. Nos últimos dias já venho percebendo os mais intransigentes relegados aos seus pequenos círculos. Muitas amizades foram perdidas talvez para sempre, muitas máscaras de intolerância antes ocultas tornaram-se mais evidentes, muitos preconceitos vieram à tona em pessoas que até admirávamos. Mas, acima de tudo, venho percebendo que não prevalece mais o discurso intolerante, de ambas as partes. Vejo neste silêncio o amadurecimento que só uma grande dor pode trazer. Todos nós estamos imersos no mesmo sofrimento, ainda que externado de diferentes formas. Deve ter sido um sentimento parecido com este que deu força à reconstrução de tantos países após as suas guerras. Vejo respeito neste silêncio. Vejo, neste silêncio, mais a apreensão com o futuro do que disposição para continuar a troca de farpas do último ano. Vejo um certo cansaço de coisas inúteis na maioria das pessoas ao meu redor.
Torço para que esta sensação seja mais que uma mera ilusão da minha personalidade sentimentaloide.
Alice Gomes
Enviado por Alice Gomes em 31/08/2016
Alterado em 31/08/2016


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