Alice Prosa e Poesia

Um pouco de mim...

Textos

Engorda de leitões

“Eu quero curso técnico pra já poder trabalhar” é a fala da sorridente atriz contratada por um governo, em pleno século XXI, na mais enganosa, mentirosa e criminosa propaganda que um governo é capaz de fazer ao seu povo. Num momento do país onde já é visível o desmonte das universidades públicas, vir um governo tentar fazer crer a uma criança que a escolha de um curso técnico no segundo grau será uma sábia decisão? Não está adoçando a pílula da divisão de castas para que ela melhor a engula? Diz pra mim, com sinceridade, o que você sabia da vida aos 15 anos de idade? Pois é essa idade o público-alvo da doce propaganda.
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Sabe essa monstruosidade desenterra algumas das piores lembranças da minha vida. Nos meus 15 anos, lá no século passado, também tive que optar, entre Científico, Magistério ou Técnico em Contabilidade. Ora, eu vinha de um trauma da fala áspera do professor de Iniciação às Ciências  que eu tinha no ginásio (não sei o nome que dão hoje),  um dentista arrogante que me fazia decorar palavras que eu não entendia, nas provas orais que ele aplicava por não ter paciência de  corrigir textos.  E também vinha dos bulings das cocotinhas-classe-média que não entendiam o que uma tímida pobretona, como eu, fazia na mesma sala que elas. Aos 15 anos de idade é desse tipo o embasamento para tomadas de decisão. Então, eu, odiando “Ciências” e sabendo que todas as cocotinhas migrariam para o Magistério, porque era assim naquele tempo, senti um alívio indescritível quando soube que o Curso Técnico em Contabilidade me traria a possibilidade de continuar estudando um pouco mais. Além, claro, do meu maravilhoso  projeto de vida, que era o de ingressar rapidamente no mercado de trabalho.  Porque, sim, eu era “esperta”. Eu não sabia nada da vida, só sabia que trabalhar era preciso e, quanto antes, melhor. Não me deram sequer a chance de conhecer química, física ou biologia, e todas as possíveis carreiras que eu pudesse vir a ter a partir do que aprendesse com elas. Não me deram sequer a chance de avaliar o meu próprio QI nessas matérias ou em quaisquer outras. Não é  justamente no segundo grau que afloram as aptidões? Mas, como aflorar o que não se conhece?
Claro que muitas águas rolaram depois disso. Ao longo da vida fui me especializando e, por ironia do destino, fui tão boa profissional na área que me sobrou, que  tive acesso à intimidade fiscal e econômica de centenas de grandes empresas por este Brasil afora. Conheço, como poucos, e pelo avesso, o tamanho da podridão dos seus porões. Como consequência de saber, muito bem, fazer contas, tenho mais facilidade de entender todos os cálculos, reais ou engendrados pelo governo, que a maioria da população. E, por ironia maior, para fugir do enjoo que ela me causava, passei a buscar refúgio na internet, nas poucas horas vagas de que dispunha, e através da internet descobri o quão maravilhoso é o mundo das ciências. Depois de adulta e pelo enjoo. Poderia ter sido por incentivo. Poderia ter sido com os neurônios mais jovens e focados. Hoje me pergunto até onde chegariam as minhas pesquisas, caso fosse uma cientista, por exemplo.
Falo de ciências porque é o que mais sinto ter perdido, mas poderia estar falando de centenas de outras profissões que, mesmo não me trazendo dinheiro, talvez me trouxessem realização pessoal.
Você já deve ter-se perguntado, ao longo do textão, onde estava a minha família, que deixou em minhas mãos, aos 15 anos de idade, a incumbência de escolher meu próprio destino, não é? Pois eu lhe respondo, sem qualquer constrangimento ou mágoa, que ela estava onde estiveram, estão e estarão milhões de outras famílias brasileiras: acreditando em propagandas criminosas de governos incompetentes, subestimando a capacidade dos seus filhos, permitindo, por ingenuidade ou alheamento, que lhes roubem os seus futuros. Assistir, sem nem se dar conta, que o sistema cria seus filhos como leitões para o abate. Crime pior que permitir a  um filho ser arrastado pela vida, feito lama em enxurrada, acho que só mesmo a morte física.
E o que mais me dói nisso tudo, sabe o que é? É pensar que é com o meu dinheiro que o governo continua financiando a ignorância (em todos os sentidos)  de outros pais e de outros filhos.
Alice Gomes
Enviado por Alice Gomes em 06/02/2017
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